Como se livrar do berne?

Berne, dermatobiose ou bicheira é uma infecção provocada pela larva da mosca Dermatobia hominis, mais conhecida como varejeira, aquele inseto relativamente grande – chega a 12 mm de comprimento – com asas longas e escuras e aparência metalizada. A espécie é endêmica da América Latina tropical.

Na verdade, existe uma diferença técnica entre berne e bicheira: no primeiro caso, apenas uma larva invade o animal, enquanto na bicheira são identificados vários parasitas, que se alimentam do tecido vivo do hospedeiro, provocando lesões mais extensas. Os efeitos, de qualquer forma, dependem do tempo necessário para identificar o problema e se livrar do problema. As larvas da varejeira são relativamente grandes (atingem 1,5 cm de comprimento) e isto pode dar uma dimensão do estrago que elas podem provocar enquanto permanecem parasitando a pele do hospedeiro.

Publicidade

Legenda: A varejeira, cujas larvas parasitam a pele de mamíferos.

Legenda: A varejeira, cujas larvas parasitam a pele de mamíferos.

A bicheira, no entanto, é mais comum em ambientes rurais (como fazendas de criação de gado), enquanto o berne pode atacar animais de estimação, especialmente os que vivem em casas térreas e passam parte do tempo soltos no quintal. Em apartamentos, as probabilidades são mínimas.

Esta espécie é conhecida por um hábito peculiar: ela depende de outro inseto (geralmente outra mosca ou mosquito, o chamado inseto forético), em que os ovos são depositados para posteriormente serem transferidos para o hospedeiro, onde as larvas se desenvolverão no tecido subcutâneo. Entre os animais domésticos, bovinos e cães são os mais acometidos, mas a bicheira pode atacar inclusive seres humanos. Os gatos também podem ser afetados, mas o hábito de lamber-se regularmente impede a eclosão dos ovos na maioria dos casos. A eventual ingestão dos ovos não causa danos à saúde.

A infestação ocorre em duas fases, a primeira delas entre a fêmea reprodutora e o intermediário. Biólogos identificaram que as varejeiras depositam seus ovos em muitas outras moscas (em pleno voo), mas poucas delas conseguem alcançar um hospedeiro (a segunda fase). Assim, o número de animais com bicheira é relativamente pequeno, a menos que o ambiente natural seja alterado. Quando o ciclo varejeira – intermediário – hospedeiro se torna mais curto, a infestação torna-se mais comum.

Publicidade

O ciclo de vida

As varejeiras são animais de hábitos silvestres. No entanto, a derrubada contínua de seu hábitat natural é o principal motivo por que elas vieram colonizar núcleos urbanos. Os animais adultos não se alimentam (têm inclusive um aparelho bucal atrofiado), sendo, portanto, de vida livre. Nos estágios anteriores, no entanto, precisam de toda a comida que acharem.

Cada inseto forético carrega entre 15 e 20 ovos, que permanecem incubados por seis dias. Ao se aproximar de um animal para descansar ou alimentar-se, as larvas são estimuladas pelo calor do hospedeiro, além da emissão de gás carbônico e odores da pele. Elas deixam os ovos e penetram na pele, mantendo o canal de respiração (espiráculo) voltado para a parte exterior da pele.

O tempo de permanência das larvas depende do tamanho do hospedeiro (e da capacidade de “ceder” alimento): em um cão médio, ficam 15 dias; no homem, até um mês; em uma vaca, podem ficar até quatro meses. No caso de berne (uma única larva parasita), o prazo de permanência em um cão pode se elevar para até 70 dias.

Ao fim deste período, caem no chão, onde se infiltram. É o estágio de pupa, que pode durar até seis semanas. A vida adulta é curta: dura apenas uma semana (em alguns casos, apenas 24 horas), tempo suficiente, no entanto, para depositar até 800 ovos, reiniciando o ciclo e invadindo novos animais.

A identificação do problema

Assim que as larvas se ocultam sob a pele, é possível notar uma lesão nodular avermelhada, com uma cavidade central por onde é eliminada uma secreção amarelada (ou sanguinolenta, no caso de grandes lesões). Esta cavidade fica permanentemente aberta e é o sinal mais fácil para identificar o berne ou bicheira.

Se o parasita não for retirado, vai completar esta etapa de desenvolvimento e sair naturalmente do hospedeiro, não sem antes provocar dor (as larvas são dotadas de espículas que incomodam bastante o tecido) e problemas cutâneos. Além disto, o canal de respiração da larva é uma porta de entrada para outras infecções por vírus e bactérias e as inflamações podem gerar abscessos. Portanto, é preciso se livrar do berne o quanto antes.

A extração do berne

A larva deve ser retirada viva, porque, caso fique parte do corpo no hospedeiro, este material orgânico pode ou não ser absorvido pelo organismo, gerando nódulos que farão o cão coçar-se e mordiscar a região, formando nódulos.

Legenda: A larva da varejeira.

Legenda: A larva da varejeira.

O berne deve ser retirado com pinça de cerâmica, espremendo-se o local e pinçando a larva. Este é o tratamento mais aconselhado, seguido de assepsia da região e, se necessário, da aplicação de antibióticos tópicos. O procedimento deve ser feito preferencialmente por um veterinário, no consultório, com exceção dos criadores que têm prática nesta manobra terapêutica. Em alguns casos, de acordo com a extensão das lesões, é preciso anestesiar o animal hospedeiro. (o procedimento exige acompanhamento médico).

Uma receita caseira que pode oferecer bons resultados é aplicar um pequeno pedaço de bacon sobre a região afetada e aguardar até que as larvas se transfiram. Fumo de corda embebido em azeite produz o mesmo efeito. Outra opção é aplicar uma injeção de óleo canforado na área. As larvas saem em até 30 minutos. O procedimento, no entanto, deve ser feito em consultório, já que a dosagem varia de acordo com a idade e peso do cão. Estas receitas são válidas também para infestações em humanos.

A eficácia não é a mesma quando se recorre a um medicamento facilmente encontrável em pet shops, o spray roxo (ou prata). Trata-se de um larvicida que apenas mata o parasita, sem retirá-lo da pele. No caso de gatos, a situação é ainda pior, já que muitos destes produtos têm violeta genciana, que podem ser tóxicos para os bichanos.

Os larvicidas devem ser usados apenas para prevenir as infestações (há também medicamentos orais, geralmente usados apenas em grandes canis e gatis), mas é preciso também controlar a população de moscas (recolhendo fezes e limpando a caixa de areia regularmente), além dos hábitos normais de higiene e limpeza da casa.

Publicidade

Comente